Por Claudia Del Corto
Você tem o hábito de conversar com seus filhos sobre os conteúdos que ele costuma consumir?
Há espaço para que essa conexão aconteça sem julgamentos e punição?
A presença massiva de diferentes tipos de influencers nas redes sociais exerce uma influência importante nas crianças e adolescentes e muitas vezes com aspectos questionáveis.
Em uma matéria anterior desta revista, chamamos a atenção para a questão do skincare entre crianças. Retomo o tema porque ele não é isolado: uma mãe contou que descobriu, por acaso, que a filha de 10 anos já seguia rotinas de cuidados com a pele e se preocupava com marcas no rosto que ainda nem existiam. Na escola, uma professora ouviu de uma aluna de 12 anos que estava “de dieta” para ter “o corpo certo para postar fotos”. Em outro momento, um grupo de jovens, reunido após a aula, comentava que, para ser popular, é preciso ignorar alguns e andar apenas com quem “aparece”.
Vídeos curtos, muitas vezes com cerca de 30 segundos, consumidos em sequência, não apenas reforçam, mas ensinam esses modos de ser, entre tantos outros que, por vezes, sequer percebemos, embora devessem nos inquietar. São conteúdos rápidos, que passam quase sem serem vistos de modo mais atento: dancinhas, interações superficiais, cenas fragmentadas que se dissipam e acabam sendo tomadas por nós como sem importância, quando, na verdade, deixam marcas.
Esses conteúdos não se organizam ao acaso. São produzidos para capturar e manter a atenção e, ao mesmo tempo, educam, estejamos nós de acordo ou não. Até produções aparentemente inocentes, como a chamada “novela das frutas”, feita por IA, operam nessa lógica: episódios curtos, repetitivos e envolventes que convocam ao próximo vídeo sem pausa. O que se instala é um circuito de estímulo contínuo, marcado pelo “mais um, mais outro, mais outro”, acionando respostas dopaminérgicas que dificultam a interrupção. Aos poucos, consolida-se uma experiência centrada no consumo, em que a percepção do tempo se organiza pela repetição e pelo imediatismo, de forma naturalizada.
Esses discursos e modos de relação encontram terreno quando falha a presença adulta capaz de sustentar o diálogo, o limite e a escuta. As redes sociais não são, por si, o problema, mas tornam-se quando passam a ocupar, sozinhas, o lugar do encontro, da intimidade e da conversa verdadeira.
Às famílias e às escolas cabe um gesto em comum: não se ausentar nem recuar. Falar, nesse contexto, é estar disponível para escutar, questionar e, quando necessário, tensionar esses modelos. Entrar nesse terreno é necessário, antes que o virtual defina, por completo, o que deve ser dito, desejado e vivido no mundo real. É urgente nos revermos e nos posicionarmos, sem receio de parecermos ultrapassados, quando o que está em jogo é o cuidado com as novas gerações.
