Há pouco mais de dois meses, João Gabriel Ortiz, de 23 anos, levava uma vida ligada ao esporte e ao futebol. Hoje, a rotina é dividida entre sessões de fisioterapia e a recuperação de uma lesão na medula espinhal causada por um grave acidente de carro. No último fim de semana, o morador de São José dos Campos se tornou o primeiro paciente do Vale do Paraíba a receber a polilaminina, substância estudada como uma possível alternativa para o tratamento de lesões medulares.
A aplicação aconteceu 64 dias após o acidente que deixou o jovem paraplégico. João estava em um carro com outros quatro jovens quando o veículo se envolveu em um acidente. Segundo a família, ele foi o mais gravemente ferido.
“Ele era o motorista e o acidentado mais grave”, relembra o pai, Gustavo Ortiz.
João sofreu fraturas nas vértebras T3, T4, T5 e T6. Os exames apontaram uma lesão completa da medula espinhal, condição necessária para que ele pudesse participar do procedimento.
Desde então, a rotina passou a ser marcada pela reabilitação. Enquanto realiza sessões de fisioterapia em casa, a família aguarda o início do acompanhamento no Centro de Reabilitação Lucy Montoro.
Foi durante esse processo que surgiu a possibilidade de receber a polilaminina. De acordo com Gustavo, a repercussão do acidente nas redes sociais chegou ao conhecimento da médica responsável pelo procedimento no Vale do Paraíba, que entrou em contato com a família e explicou os critérios necessários para participação.
“O processo não tem custo, mas é preciso apresentar documentos do hospital e exames que comprovem a lesão completa da medula”, explica.
A polilaminina é uma substância desenvolvida por pesquisadores brasileiros e estudada como uma possível alternativa para auxiliar a recuperação de pessoas com lesões na medula espinhal. Ela foi criada a partir da laminina, proteína produzida naturalmente pelo corpo humano, e ainda está em fase de estudos clínicos.
Neste ano, a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) autorizou o início da primeira fase de testes em humanos, etapa que avalia a segurança do tratamento antes que ele possa avançar para as próximas fases da pesquisa.
Segundo Gustavo, a decisão de participar do procedimento veio da esperança que o tratamento trouxe para a família e de resultados de outros pacientes que já passaram pela aplicação.
“Numa situação dessas, não restam muitas dúvidas sobre tentar. Estamos confiantes e esperançosos, sempre aliados ao trabalho de fisioterapia”, afirma.
Antes do acidente, João mantinha uma forte ligação com o futebol. Quando criança, atuou nas categorias de base do Corinthians e, mais recentemente, jogava em uma equipe amadora de São José dos Campos.

“Ele estava muito ansioso para receber a polilaminina. É um garoto jovem, atleta, e recebeu essa oportunidade com muita esperança”, conta o pai.
Além da expectativa pelos próprios resultados, a família vê com satisfação o fato de João ter sido o primeiro paciente da região a passar pelo procedimento.
“Não pensávamos em ser pioneiros, mas foi muito importante poder abrir caminho para outras pessoas que também possam precisar desse tratamento”, diz Gustavo.