Por Claudia Del Corto
A aula termina. A criança sai da escola, entra no carro e, antes mesmo de colocar o cinto, pergunta pelo celular. O adolescente deixa o inglês, o treino ou o reforço e já atravessa a porta olhando para a tela. No banco de trás, vídeos, mensagens e notificações ocupam os olhos, enquanto a cidade passa pela janela quase sem ser percebida.
A cena tem se tornado cada vez mais comum. Uma atividade termina e, antes que a próxima comece, a tela ocupa o intervalo.
Talvez valha a pena perguntar: o que está acontecendo com o caminho?
Vivemos organizando a vida por aquilo que precisa ser feito. Acordar, tomar café, levar os filhos para a escola, trabalhar, estudar, fazer atividade física, cumprir compromissos, voltar para casa, jantar, dormir. Mas, entre uma atividade e outra, existem as travessias: o caminho da escola para casa, os minutos no carro antes do inglês, a espera enquanto o irmão termina uma atividade. Pequenos tempos que, por não terem uma finalidade definida, facilmente são ignorados ou preenchidos.
O celular oferece uma solução imediata. Uma mensagem é respondida, um vídeo começa, uma música é escolhida, alguma informação é procurada. Para as crianças, muitas vezes oferecemos uma tela para que não se entediem. Entre os adolescentes, o telefone já está nas mãos antes mesmo que o trajeto comece. E nós, adultos, fazemos algo bastante parecido.
A questão não é simplesmente o celular, mas o que deixamos de experimentar quando todo intervalo precisa ser ocupado. Uma criança pode precisar de alguns minutos olhando pela janela antes de contar o que aconteceu. Um adolescente pode responder “normal” e, algum tempo depois, começar espontaneamente uma conversa.
Talvez algumas experiências precisem justamente desse intervalo para encontrar lugar dentro de nós.
Não precisamos transformar cada trajeto em “tempo de qualidade”. Podemos apenas deixar alguns caminhos sem tela, permitir o silêncio, olhar pela janela, esperar.
A vida não acontece somente nos lugares aos quais chegamos. Lembre-se: uma parte importante dela também acontece enquanto estamos a caminho.
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